VOUZELA, 10 de Abril de 2020
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Diniz de Freitas

Em busca de Deus

23 de Março 2020

A questão mais decisiva para o ser humano é a pergunta por Deus e pelo sentido último da existência. Tem por isso pleno cabimento tentar pensar a ideia de Deus mesmo quando não se acredita na Sua existência. Deus é também um assunto profano, sobretudo, como actualmente acontece, quando a sociedade substitui valores e referências essenciais pela civilização do efémero, da futilidade e da devassidão, e quando a razão e a ciência procuram dominar com poder absoluto.

Ora nem a razão, nem a ciência, conseguem demonstrar ou refutar a existência de Deus. A razão humana entende que «pode» haver Deus, mas é incompetente para provar se existe ou não, pois esta questão transcende-a. A Deus não se chega pela razão. Na linha de pensamento de Kant, «somos necessariamente ignorantes».

Também o método científico é incapaz de fornecer uma solução decisiva à questão de Deus. A ciência não tem capacidade para demonstrar ou negar a Sua existência. A fé científica esboroou-se. Existem questões-limite face às quais termina a competência da física e da matemática, porque o conhecimento científico não pode transcender o mundo da experiência.

Sendo assim, o ateu não sabe que Deus não existe. Acredita que não há Deus. Por sua vez, o crente também não sabe que Deus existe. Acredita na Sua existência. Trata-se de uma matéria de fé. Em Deus, acredita-se ou não se acredita. Como afirmou Pascal, «Deus é ou não é. A questão decisiva é que temos de escolher. Não escolher é também uma escolha».

A opção por Deus, ou pelo ateísmo, é uma questão de fé. A fé é o contexto insubstituível para o inexplicável. No entanto, ao contrário do proclamado pelo ateísmo, a fé religiosa não significa «confiança cega na ausência de evidências ou apesar delas» (Dawkins). Disse um célebre teólogo inglês, G. Tyrrel, que todos temos «uma obscura consciência do Absoluto e do Infinito».Este anseio e esta nostalgia são o fermento da fé. O salto para Deus envolve uma decisão livre, uma convicção íntima e um juízo informado e plausível, tendo em conta a ambiguidade das evidências.

É aqui que acompanho o reputado filósofo Antony Flew, durante longos anos ateu mas crente no final da sua vida, ao invocar questões decisivas sobre as quais a ciência emudece ou não apresenta uma interpretação cabal, e que por isso convocam a admissibilidade de uma Mente Superior.

Há três interrogações cruciais que devem suscitar profunda reflexão. A primeira tem a ver com as leis da natureza, isto é, tentar saber como é que a natureza aparece organizada desta maneira. Muitos cientistas proeminentes da era moderna olham para as leis da natureza como pensamento da Mente de Deus. É o caso, entre muitos outros, de Einstein: «Toda a gente que está seriamente empenhada na empresa científica acaba convencida de que as leis da natureza são a manifestação de um espírito imensamente superior ao do homem, um espírito em face do qual, com os nossos modestos poderes, não podemos deixar de nos sentir humildes». Também Paul Davies afirma: «Os ateus defendem que as leis da natureza existem sem uma razão de ser e que o universo é, em última análise, absurdo. Como cientista, acho isto muito difícil de aceitar. Tem que existir um fundamento racional imutável no qual se enraíza a natureza lógica e ordenada do universo É a Mente de Deus».

A segunda interrogação é a seguinte: como é que o fenómeno da vida surge da não-vida? Somos poeira das estrelas. O que aconteceu? Como pode um universo de material inanimado produzir seres vivos com propósitos intrínsecos, capacidade de replicação e com uma «química codificada»? A ciência não explica a natureza teleológica da vida. A ciência também não apresenta uma demonstração evidente sobre a origem da capacidade de reprodução dos seres vivos. Também não é convincente no tocante à questão da origem da codificação e do processo de informação centrais a todas as formas de vida. Perante estes enigmas, confessa Antony Flew: «A única explicação satisfatória para a origem da vida que vemos na Terra, dirigida para fins e para auto-reprodução, encontrámo-la numa Mente infinitamente inteligente».

Pode alguma coisa vir do nada? É a terceira interpelação da razão humana. Sobre esta questão crucial, o que existia «antes» da explosão inicial do universo (Big Bang), a maioria dos cientistas modernos remete-se ao silêncio. Se o universo teve um começo, torna-se inevitável perguntar o que produziu esse começo. A ciência especula sobre o tema, sem conseguir decifrá-lo. Richard Swinburne sumariza a sua exposição do argumento cosmológico afirmando: «Se Deus existe é muito provável que tenha algum entendimento da finitude e complexidade de um universo. É muito improvável que exista um universo incausado, mas muito mais provável que exista um Deus incausado. Portanto, o argumento que vai da existência do universo para a existência de Deus é um bom argumento C-indutivo».

Confrontado com o enigma de Deus e com o segredo impenetrável da existência, o homem só tem uma alternativa existencial: ou diz não a uma fundação, a um arquétipo e a um objectivo do processo evolutivo, e então terá de aceitar o absurdo desse processo, a sua absoluta solidão, o seu total abandono e a sua radical estranheza; ou o homem diz sim e aceita Deus como Criador. É o dilema entre a aceitação do Absurdo ou do Mistério. Entre a Terra como morada definitiva, ou como caminho. De esperança e com sentido.

* Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Medicina de Coimbra


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