VOUZELA, 20 de Fevereiro de 2024
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“E Aquele Ser Humano Era Tão Grande”, um contributo de Fernando Marques Pereira

17 de Julho 2020

Fernando Marques Pereira é natural de Igarei, Queirã, Vouzela. Além de professor, é escritor e um apaixonado pela música. Neste tempo de pandemia, usou a escrita para nos deixar um conto em que os valores e o impacto da mão humana no mundo são alguns dos aspectos realçados.

Como nota introdutória, o autor explica-nos: “A situação pandémica, resultante do novo coronavírus, pelo seu lado traumático e derrubador, era algo que merecia um “Banco de Memórias”. A forma como ela conseguiu parar o mundo e virar a vida de cada um ao contrário mexeu, obrigatoriamente, com a sensibilidade de todos. Daí que fiz aquilo que cada um devia fazer que foi registar, neste caso num conto porque eu gosto de contar histórias, o que a minha sensibilidade, afetada pela pandemia, me ditou.

Imagine-se a riqueza emocional que conseguiríamos reunir, se cada um, se muita gente decidisse registar (através da escrita, imagem, som…) o que sentiu e viveu enquanto esteve em confinamento!

Eis, pois, o meu contributo para o desejado “Banco de Memórias”!”

 

 

E AQUELE SER HUMANO ERA TÃO GRANDE

 

De longa e perene barba a nevar-lhe a fronte, onde cintilavam dois astros luminosos que lhe aqueciam a aparência, Sabino Serôdio era um depósito repleto do discorrer do tempo. Nele as pessoas da região tinham sempre os conselhos sábios, as orientações mais certeiras, o rumo que o tempo vivido lhe permitia enxergar.

Em cada fenómeno ele sabia acender os ditames do Criador e a vontade da mãe Natureza; em cada encruzilhada ele sabia mostrar o caminho, pela maneira do soprar do vento ou pela reunião das estrelas, e até pelo canto das aves… E à hora do descanso, ele era solenemente escutado por todos, não por alguém ver nele um oráculo, mas por todos saberem que Sabino Serôdio tinha em si toda a sabedoria, camada a camada, que o tempo foi acumulando.

– Os homens são como as árvores: sabe-se a idade que têm pelas marcas que o tempo deixa ficar neles!

E como um responso para afastar maus presságios e garantir a sensatez e o amor às coisas, que toda a gente já era capaz de repetir, todas as orações da sapiência de Sabino Serôdio findavam com a mesma parábola:

Há muitos, muitos anos, existiu sobre a terra uma espécie estranha de humanos que cultivava o egoísmo e a indiferença. A sua avareza era tão grande, a sede de poder e dinheiro eram tão gigantes que não olhava a meios para satisfazer a sua ganância. E a sua volúpia era tão atroz que perdeu muitos dos princípios fundamentais, indo mesmo ao ponto de virar as costas ao Criador e à mãe Natureza. Nos primeiros tempos ainda se foi contentando com o que ela bondosamente lhe oferecia, mas com o passar dos tempos, a sua insaciável fome foi exigindo mais e mais. Assim, sem pejo, começou a surripiar-lhe recursos e, muito pior, começou a servir à própria mãe, um veneno letal chamado poluição.

E aquele ser humano era tão grande que dizia dominar o conhecimento e a Ciência, mas não conseguia ver a maldição em que tinha caído: todos corriam em grande azáfama e não conseguiam chegar a lado nenhum; todos se guerreavam por bem-estar mas, no final de cada dia, em vez do poder que procuravam, sobrava-lhes um cansaço aterrador. E no dia seguinte tudo recomeçava do mesmo princípio e da mesma forma, para chegar ao mesmo fim.

O Criador e a mãe Natureza avisaram, voltaram a avisar… ameaçaram, voltaram a ameaçar… e nada. Aquele ser humano era tão grande que fingia estar cego e surdo… E a boca só lhe servia para blasfemar! Então, dum piscar de olhos entre o Criador e a mãe Natureza ficou assente fazerem com que aquele ser humano se transformasse. Para tal transformação escolheram uma coroa, símbolo do poder que aquela espécie tanto ambicionava, com a missão de lhe mostrar como era mortal e corrosivo o objeto da sua obstinada ambição. Assim, num inverno, foi enviada ao mundo uma coroa viva, capaz de se ajustar a todos os seres de tal espécie e a cada um.

Habituados a dominarem e a desconfiar do que não dominavam, apesar de ínfima e invisível, rapidamente identificaram a presença da coroa no meio deles. De imediato a quiseram eliminar, mas não foram capazes. De pronto convocaram todos os seus conhecimentos e insuflaram toda a força na Ciência para mostrar àquele minúsculo ser que não era bem-vindo à Terra, lugar onde quem mandava eram eles… mas não conseguiram expulsá-lo. Em desespero, sabendo onde a coroa viva se encontrava, para que não conseguisse sair dali fizeram cercos com todas as suas forças de seres grandiosos, mas facilmente passou entre eles e espalhou-se por todo o mundo!

E então, porque não conseguiram agarrar nem compreender o sentido da mensagem de tão minúsculo ente, aquele ser humano que era tão grande entrou em pânico e, mesmo sem querer, deixou de poder pensar apenas no seu ego e isso logo o transformou: deixou de correr… Fez calar os monstros com que enchia as cidades e que silenciavam a voz da mãe Natureza… E, espanto, por solidariedade, fechou-se em casa, com tempo para refletir sobre o valor dos gestos que tinha rotinado até ali.

 

                Fernando Marques Pereira


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