Na Quaresma, tempo de penitência, reflexão e oração por excelência, o Povo não esquece os seus mortos. Como testemunho desse facto, manda a tradição, bem antiga por sinal, que se “encomendem as Almas daqueles que já partiram”, remir as suas culpas pelos pecados cometidos e rezando para que o Purgatório seja apenas uma curta passagem para o Céu.
O Amentar das Almas, que em outros locais também é conhecida por “Amenta ou o Ementa das Almas”, é uma cerimónia de carácter religioso. Segundo a tradição, desde a quarta-feira de cinzas até Sábado maior, um grupo de homens, geralmente em número impar, entoava os cânticos do amentar as almas, pelas aldeias do concelho e da região. Nas encruzilhadas dos caminhos das aldeias cantavam uma quadra, que era diferente de paragem em paragem.
O itinerário teria de percorrer um trajecto de ligação, utilizando diferentes percursos evitando assim o cruzamento e a repetição dos caminhos por onde se passava, com a razão de “guiar” as almas do purgatório pelo caminho da salvação, evitando que elas se pudessem desviar pela influência do mal que tenta “cruzar-se”.
Este acontecimento era tão respeitado pelos próprios, como pelas pessoas que eventualmente passassem na rua, ao ponto de não se atravessarem no caminho dos cantadores.
Com o intuito de manter a tradição e de louvar pelos que já partiram, um grupo de pessoas da povoação de Igarei, constituído por homens e mulheres, tem procurado manter viva esta tradição ao longo dos últimos anos.
Manda a tradição na povoação de Igarei, no que respeita à ementa das almas, que se cante uma quadra em louvor das almas santas, nas 9 encruzilhas das povoação, locais já predefinidos há muitos anos, sendo a mesma quadra cantada em todas as encruzilhadas, menos na última, que é diferente e se reza a Salva Rainha. Estas quadras são cantadas desde quarta-feira de cinzas até domingo de Ramos, durante a Semana Santa são cantados os Martírios do Senhor.
Jorge Rocha